25.5.12

Amoureux I


A vida empurrou seus sonhos abaixo,
Deu demérito a todos que lhe tentou.
Deixou-se ser escrava
Mas escravizou-me em só olhar.


Perdi meu passado,
Mas corre em sangue o quanto não ligo.
Procuro em becos de ruas frias
O calor que não há mais em minha cela.


Em quem tanto se agarra quando apaga as luzes se
Somente em minhas lamúrias disse encontrar respostas?


Eu tive uma visão pelos teus olhos castanhos, amor.
Por mais longe que eu pareça estar, sei me achar.


Eu digo: tudo é blasfêmia.


Pois digo que há, amor, outros braços para me segurar
Quando volúpias escapam pelas minhas coxas já nuas e
Escorrem no colo daqueles que acham que amo.
Mas amo só quem me fez ver.


Aconchegue-se em meus lábios então;


Fiz de você minha casa de amar.

24.5.12

Amoureux II


Fagulhas com cinzas se depositaram ao lado da cadeira,
Você se encostava à porta.
Na escuridão só via teu corpo e os lábios crus
Sedentos, molhados.


Conforme se aproximou um passo após o outro,
Tirou os óculos e abriu o único laço que tinha em tua blusa
De forma tão leve como se sopra um dente de leão,
Sorriu deixando mostrar somente o início de seus dentes que
Brilhavam pela saliva.


Quando colocou as mãos em meu ombro e repousou-se em minhas pernas
Vertiginou-me com os pés no chão,
Congelou minhas mãos em seu quadril,
Fazendo sentir o toque de veludo cor de vinho que somente há
No único lugar onde podemos estar realmente juntos.


Todos os sons alheios a nós soavam como blasfêmias,
Sentia o gosto do vinho com cigarro na tua língua e
Trancou-me em suas pernas enquanto dançava sob a luz
Daquele breve abajur no canto.


Deitava seu pescoço com o queixo em minha cabeça,
Lá achei uma casa, um celeiro rodeado de pétalas em meio à tempestade.
Abracei-lhe com as unhas;
Você forcou suas mãos em meus ombros;
Expeliu tanto prazer com os pulmões
Estes agora sincronizados com os meus.


Trocamos fundos olhares de pupilas dilatadas,
Vimos os suores escorrerem para dar espaço aos sonhos,
Mordeu meu rosto e disse besteiras em minha boca.
Ria ainda tímida enquanto alongava-se para trás
Com um único gemido que para qualquer outro fora dali
Pareceria a morte.


Mas éramos abandonados.
Eu diria que eles estariam errados.
Estávamos amarrados naquela tragédia e
Sobrevivíamos juntos.

29.4.12

A Utopia e a Realidade



Eram belas, nuas, repousadas em leito de
Deleite esplêndido.
Tocavam-se as peles com pontas frígidas de dedo
Enxergavam-se meras silhuetas através das sombras.
Coube tanta angustia em um cigarro soprado
Na sinfonia de receios que ali rondava
Eterna disputa entre a Realidade e Utopia
Mas amavam-se como eram
Pois eram dependentes.


Somente podiam viver separadas
Pois o vulgo julgo de homens assim permitiu.
Jamais deveriam existir as mãos dadas,
Já que vinculadas profanavam a carne
Expondo íntimos aos ventos,
Destruindo imposições vagas
Impostas por aqueles que
Tinham medo de amar uns aos outros.


Assim sopro meu inumerado cigarro da noite
Tragando no meu copo de uísque
Lamúrias sobre algo onde não coexisto.
Deixo a porta trancada para todos
Procurando motivos de meu coração ser tão doente e
Unidas elas me contaram que
Basta o horizonte morrer em nuvens avermelhadas
Nas madrugadas escassas de amor.

21.3.12

Madrugada



Os pássaros da madrugada

Passam gritando pela minha janela

Ninguém os vê

Só os ouvem

Cantarolar.



Sorrio sozinho daqui!

Um Breve Cigarro



Deixe-me pelas chuvas de Março

Nas gotículas da janela

Nas nebulosas do vidro

Sem saber se é tua brisa

Ou meus breves cigarros.


Deixe-me acordar nas madrugadas

Caminhando de volta pra casa

Sozinho, tomando forma de nomes,

De olhos, de pessoas,

Morrendo junto às nuvens.


Deixe cicatrizes nos meus ossos,

Mate meu furor a cada trago do teu gosto,

Deguste minha língua nos teus cabelos,

Molhe os seios no meu vinho.

Quero olhar os olhos dilatados,

Ver onde as ansiedades vão viver,

Sonhos morrer,

Debruçar na janela e

Voltar aos meus cigarros.


Deixe-me só

Pois só, sei quão remoto é.

O amor parte da distancia que criei.